[um esqueleto de cristal]

um esqueleto de cristal
já não me serve mais
a fragilidade a elegância e a ternura
já não serve mais
pode continuar sendo
um esqueleto transparente
talvez até
esteja se tornando translúcido
mas não quero mais
o encosta-quebra do cristal
não não já não serve mais
preciso de um esqueleto resistente
à tanta turbulência

queria ser uma mulher de dentes brancos

queria ser uma mulher
de dentes brancos
e não ter cáries
eu tenho cáries
sempre tive
muitas cáries
não posso falar isso
porque sei que pega meio mal
mas eu tenho muitas
sempre tive
e quanto mais eu trato
mais elas aparecem
e eu paro e imagino
bichos minúsculos
comendo meus dentes
e minha boca cheia
de saliva
escorrendo pelas laterais
como aquele alien
do filme
cáries. eu tenho muitas.

[eu pensava]

eu pensava
não é o volume que
precisa ser alto
cada instrumento aceita
a sua cadência
meu corpo
é um tambor
e o pastor da assembléia
de deus ao lado da minha
casa berra:
sai! sai! sai!
meu corpo é o que
ressoa da corda de
um violino
e o pastor da assembléia
de deus ao lado da minha
casa berra:
sai! sai! sai!
meu corpo agora é o toque de
um teclado
e o pastor berra:
sai! sai! sai!
meu corpo é o tom grave de
um trompete
e o pastor:
sai! sai! sai!
meu corpo na
batida eletrônica
e:
sai! sai! sai!

sístole || diástole

[sístole] por que não paro de lembrar daquele encontro?
[diástole] ele vai me ligar só deve estar ocupado
[sístole] pra ele foi só uma noite
[diástole] ainda acho que é possível
[sístole] essa coisa de amor não existe
[diástole] homens são tão desligados
[sístole] é melhor esquecer apagar de vez
[diástole] a pele dele é tão gostosa
[sístole] será que fiz alguma coisa errada?
[diástole] não preciso ter pressa
[sístole] já passou tanto tempo e até agora nada
[diástole] ele deve ser muito tranquilão mesmo
[sístole] eu vou esquecer sei que vou esquecer
[diástole] não preciso apagar tudo foi tão bonito
[sístole] será que ele encontrou alguém?

 

este poema é sobre uma mala

este poema é sobre uma mala. na verdade, este poema é sobre uma mala que cansei de carregar. talvez este poema seja sobre o peso da mala talvez este poema seja sobre a falta de espaço para guardar esta mala talvez este poema seja sobre o dono da mala talvez este poema seja sobre as coisas de dentro da mala talvez este poema seja sobre as lembranças que tenho ao ver os objetos de dentro da mala talvez este poema seja sobre as rodinhas da mala que não funcionam talvez este poema seja sobre a minha vontade de não ter mais esta mala. te entrego a mala agora. acabou o poema.

monday blue

 

marcaria na pele
para a vida toda
corações ao redor dos mamilos
círculos nas axilas
um triângulo no umbigo
no espelho

no espelho
um corpo
maduro e formado
de seios pequenos

tatuaria
a palavra calma
uma pequena estrela
“olhe” escreveu entre os mamilos
depois apagou tudo
com algodão e água

viu agora
o corpo todo suado e pintado
como um personagem
que acabou de sair de cena
monday blue, poderiam dizer.

[os versos me escapam]

os versos
me escapam
corro para anotá-los
em pedaços de papel
que depois se perdem
esses poemas escorregadios

o poema de Carver
é como piche
o meu ainda é líquido
não deixa as minhas mãos sujas
depois que escapa
é como se nunca tivesse existido

por isso
não construo uma casa
para um poema
porque ele nunca está lá

por isso
não uso luvas
porque quando surge
preciso senti-lo na pele

palavras brancas

tento construir com areia
molhada e resistente
um castelo de pedras
bebendo travessia
me alimentando com tâmaras

me cubro com palavras brancas
à espera
do próximo ano
desejos que foram costurados na barra do vestido
e a vontade de voltar a sonhar

sei que me prendi na dor
na dor da sua doença
naquela palavra que não quero usar
porque guardei para o tal livro
então, termino.

agora é um ano que começo
longe do mar
longe de você
presa nas miudezas

a palavra baleia
é cheia, não é?