nesse tempo que não manda notícias, que os versos não vêm, que acho que nunca mais vou conseguir escrever, que acho que nunca mais serei amada e que imito o comportamento do crustáceo – aquele que você nem sabia qual era – quero viver a vida de Sylvia.

leio sobre o charme dos garotos de Sylvia, o movimento da dança de Sylvia, as velas azuladas do jantar de Sylvia e sobre o sol que, para Sylvia, lança uma luz cremosa. frases e mais frases de um volume de mil páginas que prevejo chegar ao fim, comigo aqui, ainda sem notícias.

[lavando a louça]

lavando a louça
ou quando deito
escuto
ao meu redor
homens trabalhando na construção
o ruído áspero do cimento
o tilintar de de um pedaço
de metal contra o outro
a pá raspando o chão
a fricção lúdica dos azulejos
sempre escuto
o berro explosivo das crianças
na quadra da escola
o sino que toca
sempre adiantado ou atrasado
a senhora minha vizinha
que gosta de música dos anos 90
ou um tenor que às vezes
aparece no boteco ali de baixo
escuto até o movimento
tubular e vertical do elevador
escuto quando
o casal ao lado briga
o sussurro que sobra
atravessando a parede
escuto o sertaneja tocando
na calçada do açougue
escuto muita coisa
sem fazer um barulhinho sequer
deitada na cama de viúva
que comprei depois do divórcio.

J35

a orca J35 empurrou com a cabeça o seu filhote morto por 17 dias no mar. os cientistas ficaram preocupados com a saúde da orca, preocupados que pudesse se machucar. os cientistas não entenderam. os cientistas estão preocupados com a reprodução da espécie enquanto J35 empurra seu filhote morto. os cientistas não entenderam nada. o filhote viveu somente 30 minutos, os cientistas acham que a orca criou um laço emocional. enquanto isso, J35 empurra seu filhote. os cientistas ainda não entenderam. há 2.190 dias empurro o seu corpo no mar, mãe, e não sinto peso algum, tampouco tenho medo de me machucar. os cientistas não entendem.

[como este livro]

como este livro
lido pela metade
este espaço ocupado
inutilmente na estante
qual o sentido
das palavras impressas
milhares delas
em blocos de papel
um espaço inútil
ocupado na estante
esperando um corpo
que te dê sentido
uma narrativa contada
só o começo
um personagem traçado
traçado pela metade
como neste livro.

[fechei a porta]

fechei a porta, juntei as roupas sujas, as panelas, as louças, os farelos de ração, as manchas de óleo no chão, as folhas secas da samambaia, as coisas por fazer, a minha timidez, minha falta de tato, o pó dos móveis, os pelos da cadela, os livros que não li, os que li pela metade, as coisas que não disse, a sua falta de tato, a nossa cautela, a feiura do meu joanete, os meus cabelos brancos, a torneira por trocar, as fissuras da parede, os restos de comida, as embalagens vencidas, a cômoda com cupim e montei uma barricada pra não deixar você entrar.

[achei que]

achei que
a gente fosse
como uma
colagem que
une imagens
que não nasceram
.
juntas
.
mas poderiam
construir um sentido
improvável e bonito
só por estarem
.
unidas
.
mas vi que
por estarem
.
juntas
.
é que não fazem
sentido
.
e talvez
eu é que carregue
esse ruído
entre as duas
.
superfícies
.
e não deixe
uma imagem
se misturar
à outra.