eu não gostava de você

eu não gostava de você
gostava do aro grosso dos seus óculos
seu cabelo arrepiado
e o azul do seu olho
eu não gostava de você
gostava da sua altura
do jeito que andava
e a textura do seu moletom
eu não gostava de você
gostava de não estar sozinha
de ter um status
eu não gostava de você
não gosto de você
hoje te odeio.

[no meio da tarde]

no meio da tarde
sinto um frio estranho
mãos e pés gelados
e tremo um pouco
coloco as mãos
embaixo das coxas
mas preciso usar
as mãos
sinto frio na nuca
solto o cabelo
mas a franja está
longa demais
sinto frio na ponta
dos pés
mexo os dedos dentro
do sapato
mas o couro está
justo demais
abro um livro para me
distrair e percebo que
gosto quando os últimos
versos de um poema
sobram sozinhos na
página em branco
como se precisássemos
de todo aquele espaço
para nos preparar para
o poema seguinte
como um animal
de sangue frio.

não deve ser fácil
continuar vivo
atracado a um
corpo já morto.
foi o que pensei
hoje de manhã
enquanto me olhava
no espelho e percebi
um fio de cabelo
caído na pia.
pensei em qual seria
a última lembrança
daquele fio
de uma cor quase cobre
pensei até se o fio
tinha sido meio suicida
– se jogar daquela altura
é morte na certa –
mas não deve ser fácil
continuar vivo
ainda atracado a um
corpo já morto.

nesse tempo que não manda notícias, que os versos não vêm, que acho que nunca mais vou conseguir escrever, que acho que nunca mais serei amada e que imito o comportamento do crustáceo – aquele que você nem sabia qual era – quero viver a vida de Sylvia.

leio sobre o charme dos garotos de Sylvia, o movimento da dança de Sylvia, as velas azuladas do jantar de Sylvia e sobre o sol que, para Sylvia, lança uma luz cremosa. frases e mais frases de um volume de mil páginas que prevejo chegar ao fim, comigo aqui, ainda sem notícias.

[lavando a louça]

lavando a louça
ou quando deito
escuto
ao meu redor
homens trabalhando na construção
o ruído áspero do cimento
o tilintar de de um pedaço
de metal contra o outro
a pá raspando o chão
a fricção lúdica dos azulejos
sempre escuto
o berro explosivo das crianças
na quadra da escola
o sino que toca
sempre adiantado ou atrasado
a senhora minha vizinha
que gosta de música dos anos 90
ou um tenor que às vezes
aparece no boteco ali de baixo
escuto até o movimento
tubular e vertical do elevador
escuto quando
o casal ao lado briga
o sussurro que sobra
atravessando a parede
escuto o sertaneja tocando
na calçada do açougue
escuto muita coisa
sem fazer um barulhinho sequer
deitada na cama de viúva
que comprei depois do divórcio.