puro deboche

aquele nosso oi foi protocolar
eu escandalizando
com meu batom vermelho
por puro deboche

não tinha percebido
que naquele canto
da casa bate sol
me dou conta
que não te mostrei
nada disso

passo meu batom vermelho
torcendo que não seja
pra você
por puro deboche

você foi pra mim
a mais cafona
das metáforas
um filme de terror
que começa
num dia ensolarado

passo meu batom vermelho agora
e não é pra você
é por puro deboche.

 

é pelas bordas que se habita uma concha

não sei se te encontro por terra ou por mar. na dúvida, tento um primeiro mergulho. que a sua espécie é solitária, não me surpreende. fico pensando como sabe quando é a hora de encontrar uma nova casa – começo a mergulhar agora – se te encontrar, queria te falar sobre a minha concha, te ensinar que numa concha os armários e as estantes precisam subir nas paredes. é pelas bordas que se habita uma concha. quando te encontrar, estarei com o café pronto, duas colheres de açúcar pra você.

[conheci uma égua ]

conheci uma égua
chamada Julia
não sei se era Júlia com
ou sem acento
quando eu não sei
deixo sem acento
mas talvez seja melhor
escrever com

conheci uma égua
chamada Júlia
era uma égua branca
de pernas compridas
não sei se cavalos têm pernas
as dela eram pernas
finas (mas fortes)
e longas bem longas
os joelhos virados
para o lado
joelhos velhos como os meus

Júlia é uma égua idosa
como eu
já não serve mais para
parir outros bichos
e enquanto ela me
encarava eu entendi
eu entendi
nem todo caco
é parte de um
estilhaço
nem todo caco
é quebrado

o pinguim de calça jeans

 

 

 

desde quando montaram a última exposição
entro no lugar onde trabalho
vejo essa obra do Artur
e lembro do título
do livro da Júlia
eu gostei do livro
gosto do título
seiva veneno ou fruto
porque o título é um poema
e a capa é um poema
esses dias
a Nati me perguntou
o que ele me disse
eu perguntei
quem
ela respondeu
o poema
até agora estou pensando
no que é que o poema me disse
esse poema é da Laura
não da Júlia
a Júlia vê constelações
talvez se eu perguntasse pra Júlia
o que ele te disse
ela responderia sobre
a posição dos astros
sobre o Polo Sul
eu vejo o pinguim
o pinguim de calça jeans

 

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imagens da exposição “asterismos” de Artur Lescher na Galeria Nara Roesler, 2018

naquela época

ainda não uso óculos
não uso bengalas ainda
não tenho tatuagens ainda
ainda não tinjo os cabelos
hoje tenho apetrechos que antes não tinha
tenho três cicatrizes
naquela época
só duas
uso três brincos
naquela época
cinco
rompi alguns ligamentos
naquela época
ligamentos perfeitos
tenho dois parafusos de titânio
naquela época
nenhum
o joanete ainda dói
como naquela época
um cão está ao meu lado agora
é outro cão
não o daquela época
me sinto sozinha
talvez menos
que naquela época

 

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este poema foi publicado na edição de outubro/2018 do jornal impresso de literatura RelevO