já que falaram tanto
sobre o amor
e mesmo assim
eu não entendi
vou te ensinar o jeito
certo e saboroso
de se fazer feijão:
primeiro deixe o grão
de molho de um dia
para o outro e escorra
coloque na panela
com água limpa dois dedos
acima do feijão
eu não uso panela de pressão
leva tempo para preparar
o amor
ops eu tava falando do feijão
depois quando o grão
estiver macio tire uma concha
e amasse até virar um purê
daí refogue com cebola e alho
não esqueça do sal
a medida dos ingredientes
dependerá da quantidade
de amor
ops ops eu tô falando do feijão
depois acrescente a parte
temperada ao resto dos grãos
tem gente que coloca
uma folha de louro
mas eu não
prefiro um amor simples
eita, eu não tava falando do feijão?
[quando passo]
quando passo
embaixo de uma
árvore carregada
de pitangas maduras
penso que desperdício
e penso que
se você estivesse
aqui puxaria
um galhinho
para o meu alcance
porque era isso
que você fazia
puxava os galhinhos.
apesar
apesar de gostar
de saber o peso
dos alimentos
aqui já não se
compra nada a granel
não vale a pena
também não se
pede porções grandes
nem nada que
dure muito tempo
não levo promoção
2 a preço de 1
aqui é só
pra 1 mesmo.
fora de cena
a regência é minha
e saio de cena
como um maestro
que deixa o palco
os músicos em formação
esperando por aplausos
e minha corrida de
volta ao púlpito
todos prontos para o bis
mas para que eu volte
alguém tem que chamar
e ninguém chama.
meu avô
conheci pouco
o meu avô
.
sei que
entre outras coisas
foi piloto
e que sabia
sobre aviões
e sobre os
astros e planetas
tanto que construiu
um observatório
em cima de seu quarto
dizem até
que acreditava em vida
extraterrestre
.
meu avô olhou pra Lua
e disse que eu
ia nascer
naquela noite
e na madrugada
eu nasci
.
foi por ele que
eu soube
que planadores flutuam
como pássaros
meu avô estudava
as correntes de vento
.
foi do meu avô
a primeira pele gélida
que toquei
e depois vieram
algumas outras
.
um dia
eu tinha uns 7 anos
e disse que queria
voar
ele disse
agora não
eu não gostava de você
eu não gostava de você
gostava do aro grosso dos seus óculos
seu cabelo arrepiado
e o azul do seu olho
eu não gostava de você
gostava da sua altura
do jeito que andava
e a textura do seu moletom
eu não gostava de você
gostava de não estar sozinha
de ter um status
eu não gostava de você
não gosto de você
hoje te odeio.
o homem com quem casei
o homem
com quem
casei
era bom
em quebrar
as coisas
é.
ele era bom
nisso.
ele quebrava
pratos copos taças
entortava até
os talheres
não sei porque
achei que
sairia inteira
depois de
tanto tempo.
[no meio da tarde]
no meio da tarde
sinto um frio estranho
mãos e pés gelados
e tremo um pouco
coloco as mãos
embaixo das coxas
mas preciso usar
as mãos
sinto frio na nuca
solto o cabelo
mas a franja está
longa demais
sinto frio na ponta
dos pés
mexo os dedos dentro
do sapato
mas o couro está
justo demais
abro um livro para me
distrair e percebo que
gosto quando os últimos
versos de um poema
sobram sozinhos na
página em branco
como se precisássemos
de todo aquele espaço
para nos preparar para
o poema seguinte
como um animal
de sangue frio.
não deve ser fácil
continuar vivo
atracado a um
corpo já morto.
foi o que pensei
hoje de manhã
enquanto me olhava
no espelho e percebi
um fio de cabelo
caído na pia.
pensei em qual seria
a última lembrança
daquele fio
de uma cor quase cobre
pensei até se o fio
tinha sido meio suicida
– se jogar daquela altura
é morte na certa –
mas não deve ser fácil
continuar vivo
ainda atracado a um
corpo já morto.
nesse tempo que não manda notícias, que os versos não vêm, que acho que nunca mais vou conseguir escrever, que acho que nunca mais serei amada e que imito o comportamento do crustáceo – aquele que você nem sabia qual era – quero viver a vida de Sylvia.
leio sobre o charme dos garotos de Sylvia, o movimento da dança de Sylvia, as velas azuladas do jantar de Sylvia e sobre o sol que, para Sylvia, lança uma luz cremosa. frases e mais frases de um volume de mil páginas que prevejo chegar ao fim, comigo aqui, ainda sem notícias.