é uma mania
a de puxar
um pedaço de pele
de preferência
da bochecha
dividir em duas partes
e apertar uma
contra a outra
quase como
querendo existir
mas por favor
não repare nisso quando me ver.
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[lavando a louça]
lavando a louça
ou quando deito
escuto
ao meu redor
homens trabalhando na construção
o ruído áspero do cimento
o tilintar de um pedaço
de metal contra o outro
a pá raspando o chão
a fricção lúdica dos azulejos
sempre escuto
o berro explosivo das crianças
na quadra da escola
o sino que toca
sempre adiantado ou atrasado
a senhora minha vizinha
que gosta de música dos anos 90
ou um tenor que às vezes
aparece no boteco ali de baixo
escuto até o movimento
tubular e vertical do elevador
escuto quando
o casal ao lado briga
o sussurro que sobra
atravessando a parede
escuto o sertaneja tocando
na calçada do açougue
escuto muita coisa
sem fazer um barulhinho sequer
deitada na cama de viúva
que comprei depois do divórcio.
J35
a orca J35 empurrou com a cabeça o seu filhote morto por 17 dias no mar. os cientistas ficaram preocupados com a saúde da orca, preocupados que pudesse se machucar. os cientistas não entenderam. os cientistas estão preocupados com a reprodução da espécie enquanto J35 empurra seu filhote morto. os cientistas não entenderam nada. o filhote viveu somente 30 minutos, os cientistas acham que a orca criou um laço emocional. enquanto isso, J35 empurra seu filhote. os cientistas ainda não entenderam. há 2.190 dias empurro o seu corpo no mar, mãe, e não sinto peso algum, tampouco tenho medo de me machucar. os cientistas não entendem.
[como este livro]
como este livro
lido pela metade
este espaço ocupado
inutilmente na estante
qual o sentido
das palavras impressas
milhares delas
em blocos de papel
um espaço inútil
ocupado na estante
esperando um corpo
que te dê sentido
uma narrativa contada
só o começo
um personagem traçado
traçado pela metade
como neste livro.
[fechei a porta]
fechei a porta, juntei as roupas sujas, as panelas, as louças, os farelos de ração, as manchas de óleo no chão, as folhas secas da samambaia, as coisas por fazer, a minha timidez, minha falta de tato, o pó dos móveis, os pelos da cadela, os livros que não li, os que li pela metade, as coisas que não disse, a sua falta de tato, a nossa cautela, a feiura do meu joanete, os meus cabelos brancos, a torneira por trocar, as fissuras da parede, os restos de comida, as embalagens vencidas, a cômoda com cupim e montei uma barricada pra não deixar você entrar.
[achei que]
achei que
a gente fosse
como uma
colagem que
une imagens
que não nasceram
.
juntas
.
mas poderiam
construir um sentido
improvável e bonito
só por estarem
.
unidas
.
mas vi que
por estarem
.
juntas
.
é que não fazem
sentido
.
e talvez
eu é que carregue
esse ruído
entre as duas
.
superfícies
.
e não deixe
uma imagem
se misturar
à outra.
[se subíssemos ]
se subíssemos
até ali
e sentássemos
naquele banco
e se me deixasse te
ensinar a desenhar
veria que o olho
engana
que as dimensões
no desenho
não podem ser reais
porque o olho precisa
ser enganado
perceberia o quanto é
difícil entender
o tamanho de uma linha
ou para qual
direção ela aponta.
[corto um tomate]
corto um tomate
ao meio fazendo
uma incisão perpendicular
abro a fruta
e vejo que parece
um pulmão
e o que me diferencia
dos tomates
entre outras coisas
é que respiro.
sonho com um
tubarão
dou um google
sonho que como um
pedaço de bolo
dou um google
sonho que nado numa
pscina
dou um google
dente caindo cachorro correndo
google google
dou um google quando
vejo um familiar
alguém que já morreu
mas vive no sonho
google.
[Sylvia vai à praia]
Sylvia vai à praia e escreve A cerração azulada que acompanhava a costa desbotava as cores, cobrindo tudo com um halo opaco e difuso. Acima do ruído contínuo e violento da maré ouviam-se os gritos agudos das crianças, cortando a brisa úmida esfumaçada que soprava do mar.
.
Julia vai à praia não escreve palavra e tira foto de seus pés na areia.
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