[os versos me escapam]

os versos
me escapam
corro para anotá-los
em pedaços de papel
que depois se perdem
esses poemas escorregadios

o poema de Carver
é como piche
o meu ainda é líquido
não deixa as minhas mãos sujas
depois que escapa
é como se nunca tivesse existido

por isso
não construo uma casa
para um poema
porque ele nunca está lá

por isso
não uso luvas
porque quando surge
preciso senti-lo na pele

[conheci uma égua ]

conheci uma égua
chamada Julia
não sei se era Júlia com
ou sem acento
quando eu não sei
deixo sem acento
mas talvez seja melhor
escrever com

conheci uma égua
chamada Júlia
era uma égua branca
de pernas compridas
não sei se cavalos têm pernas
as dela eram pernas
finas (mas fortes)
e longas bem longas
os joelhos virados
para o lado
joelhos velhos como os meus

Júlia é uma égua idosa
como eu
já não serve mais para
parir outros bichos
e enquanto ela me
encarava eu entendi
eu entendi
nem todo caco
é parte de um
estilhaço
nem todo caco
é quebrado

o pinguim de calça jeans

 

 

 

desde quando montaram a última exposição
entro no lugar onde trabalho
vejo essa obra do Artur
e lembro do título
do livro da Júlia
eu gostei do livro
gosto do título
seiva veneno ou fruto
porque o título é um poema
e a capa é um poema
esses dias
a Nati me perguntou
o que ele me disse
eu perguntei
quem
ela respondeu
o poema
até agora estou pensando
no que é que o poema me disse
esse poema é da Laura
não da Júlia
a Júlia vê constelações
talvez se eu perguntasse pra Júlia
o que ele te disse
ela responderia sobre
a posição dos astros
sobre o Polo Sul
eu vejo o pinguim
o pinguim de calça jeans

 

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imagens da exposição “asterismos” de Artur Lescher na Galeria Nara Roesler, 2018

naquela época

ainda não uso óculos
não uso bengalas ainda
não tenho tatuagens ainda
ainda não tinjo os cabelos
hoje tenho apetrechos que antes não tinha
tenho três cicatrizes
naquela época
só duas
uso três brincos
naquela época
cinco
rompi alguns ligamentos
naquela época
ligamentos perfeitos
tenho dois parafusos de titânio
naquela época
nenhum
o joanete ainda dói
como naquela época
um cão está ao meu lado agora
é outro cão
não o daquela época
me sinto sozinha
talvez menos
que naquela época

 

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este poema foi publicado na edição de outubro/2018 do jornal impresso de literatura RelevO

Julia bac pede contato

 

baudelaire

 

Baudelaire
senta aqui, puxa um banquinho
vamos falar sobre o tempo
sobre os passantes na rua

Baudelaire
vamos dividir um croque-monsieur
beber alguma coisa
talvez nos embriagar

Baudelaire
conta mais sobre sua viagem
me ajuda a traduzir este verso:
Au fond de L’Inconnu pour trouver du nouveau

Baudelaire
Baudelaire
Julia Bac pede contato
mas não te procuro nas ondas de rádio

um salto no vazio

como Klein
cada poema
é um salto no vazio,
mãe.

cada ano
mais alguns
“o que acharia disso”,
mãe.

há 5 anos
a cada enjambement
celebro o silêncio
como Klein
no seu salto no vazio,
mãe.

continuo sendo aquele
bicho híbrido
meio pato meio pássaro,
mãe.

é isso
por enquanto
é isso,
mãe.

[a primeira coisa que fiz]

a primeira coisa que fiz

quando você saiu pela porta

foi colocar uma pequena toalha

com flores bordadas

– aquela que você não gosta –

na mesinha de cabeceira

.

troquei os lençóis

para tirar o seu cheiro

varri o chão

para que não sobrasse

nem um fio

de cabelo seu.

.

limpei as portas

as janelas

os azulejos

podei as plantas

tudo

para não sobrar nenhum rastro

nenhuma partícula

que tenha tocado o seu corpo.

.

.

.

.

*esse poema foi publicado no zine “eclipse” dos alunos do Clipe/poesia 2017 da Casa das Rosas.