nove e meia da manhã

nove e meia da manhã
são nove e meia da manhã e
já fiz o café
já lavei a louça
estendi a roupa no varal
já levei o cachorro pra passear
respondi e-mails
e perdi meu tempo nas redes sociais.
são nove e meia da manhã e
terminei de ler o livro do Beckett
varri a garagem
tomei banho
e esqueci propositadamente de secar os cabelos.
são nove e meia da manhã de um domingo e
já tive três crises existenciais:
a primeira quando acordei de ressaca
a segunda quando vi o meu reflexo no espelho sujo
e a terceira quando comecei a escrever esses versos.

escrita de um poeta

sei que não tenho precisão
que escrevo coisas por acaso
que me prendo aos detalhes
– e talvez isso seja bom –

talvez seja muito sensível
talvez um pouco dramática
mas sei que me falta rigor

me falta o tal brilho
o olhar certeiro
a escrita de um poeta

talvez escreva intuitivamente
talvez seja apressada
ou até um pouco desleixada

sei que me falta repertório
me falta leitura
muita leitura

talvez me falte saber
o que é a boa poesia
encontrar a concisão

a condensação, diriam.

faixa de areia

faixadeareia

sentada.
pés fincados na areia.
uma menina, longe dali, treinava algumas acrobacias, estrela, espacate e passos desengonçados de uma dança que ninguém notava.
era como eu
anos atrás
naquela faixa de areia
onde já fui desengonçada, já fui insistente, pequena, traída, chorona, sexy, grunge, amada, morena, calma, adolescente, apocalíptica, carinhosa, humilde, dramática, brincalhona, rebelde, tímida, acolhedora, paciente, construtora, destruidora, empírica, seca, cool, apavorada, sociável, transitória, esquecida, firme, aventureira, gorda, instável, despida, genial, infeliz, sozinha, desejada, abelhuda, anárquica, solteira, caçula, bajulada, simples, abraçada, louca, hippie, nostálgica,
já fui cinematográfica.
nessa paisagem
nos últimos 34 anos.

provavelmente

hoje seria um domingo qualquer.

provavelmente reclamaria de ter pouco dinheiro
que deveria ter feito outra coisa e que a culpa é sua
porque sempre me disse para fazer algo que gostasse.

provavelmente você arrumaria meu cabelo
colocaria a franja atrás das minhas orelhas
falando que eu deveria mostrar mais meu rosto
e ter paciência.

provavelmente sentaríamos juntas na cabeceira da cama
eu continuaria a reclamar
a perguntar muitos porquês
escorregando até deitar.

você provavelmente seguraria a minha mão
eu lembraria do dia
em que meu pai me chamou
para ir comprar a sua aliança
repararia nos seus dedos largos como os meus.

provavelmente suas unhas
estariam pintadas de uma cor
forte e vibrante
talvez vermelho.

você iria me olhar com calma
me chamaria de existencialista
talvez sentiria orgulho disso.

olharíamos no olho.

eu diria que a vida é muito difícil
que se soubesse teria feito administração ou economia
você soltaria a minha mão nessa hora
ficaria decepcionada
diria que a vida não é só dinheiro.

provavelmente eu continuaria puta com a minha profissão
sem ser grata
por aquele momento juntas
na cama
em que encostaríamos nossos pés

o calor do corpo.

o pai chegaria logo depois
com duas canecas de café preto puro
um saquinho de Stevia
e um pequeno bule
com leite quente para você.

antes de terminar o café
já combinaríamos o almoço
talvez um japonês ou aquele árabe
que escolheríamos só por causa da sobremesa.

no final do café
continuaríamos ali deitadas
provavelmente assistindo Globo News
você faria um comentário afiado sobre política
e eu já estaria mais calma
talvez mais feliz
porque era essa segurança que você me dava.

ficaríamos prontas para sair
já na porta
me olharia dos pés a cabeça
e diria:
não vai pôr nem um brinquinho?

mudança

paredes:
5 dias de pintura

carreto:
300 reais mais o ombro do assistente

família:
conforto mais atritos esporádicos

espaço:
uns 50 reais de produtos de limpeza

minhas manias:
caixa vazia de sabonete
embalagem vazia de café orgânico
lata vazia de chá chinês
cartão postal que nunca mandei
envelope colorido que nunca usei
ponta do lápis que não dá mais para gastar
fotos de um lugar que não conheci
máquina de costura que não sei usar

tudo ainda embalado empacotado relativamente organizado
procurando um lugar.

formas de voltar para casa

na paulista
pego o Terminal Pirituba
logo pensei má ideia
ônibus lotado
todo mundo espremido
devia ter ido de metrô

na vila madalena
esvazia um pouco
competição por um assento
ganhei!

sentado ao meu lado
um gordo
me espremo no que resta do banco
do outro lado
um cara de pé
escutando música com um fone azul

o fio do fone
balançava com a cintura
movimentos circulares
a cada balanço dele
me esquivo
abro um livro
tento focar no texto

Mas não estou seguro de fazer isso bem. Sinto-me próximo demais daquilo que conto. Abusei de algumas lembranças, saqueei a memória, e também, de certo modo, inventei demais. Estou de novo em branco, como uma caricatura do escritor que contempla impotente a tela do computador.

me esquivo
tento focar no texto

Sim. Mais ou menos. Mas o livro é meu. Não poderia deixar de aparecer. Ainda que me atribuísse outros traços e uma vida muito distinta da minha, do mesmo jeito eu estaria no livro. Já tomei a decisão de não me proteger.

me esquivo

a cintura dele roçando no meu braço
me esquivo

Estou nessa armadilha, no romance. Ontem escrevi a cena do reencontro, quase vinte anos depois. Gostei do resultado, mas às vezes penso que os personagens não deveriam voltar a se ver.

entre o cara e o gordo
na quinta roçada
abaixo o meu livro-disfarce
fito o olho dele:
para de esfregar esse seu pinto no meu braço!
penso. só isso.
rapidamente ele se vira e anda na direção da saída

esperando o Paraíso

20 minutos
esperando esperando
o moço dá um trago
eu sinto o gosto

sento levanto sento levanto

30 minutos
moço, o Paraíso passa mesmo aqui?
passa sim
como demora!
tem outro na rua de baixo
tem que andar 5 quadras
senão é perigoso
vou esperar aqui mesmo

sento levanto sento levanto

50 minutos
chegou!
– solto um sorriso –
pensa que é fácil chegar ao Paraíso?