nove e meia da manhã

nove e meia da manhã
são nove e meia da manhã e
já fiz o café
já lavei a louça
estendi a roupa no varal
já levei o cachorro pra passear
respondi e-mails
e perdi meu tempo nas redes sociais.
são nove e meia da manhã e
terminei de ler o livro do Beckett
varri a garagem
tomei banho
e esqueci propositadamente de secar os cabelos.
são nove e meia da manhã de um domingo e
já tive três crises existenciais:
a primeira quando acordei de ressaca
a segunda quando vi o meu reflexo no espelho sujo
e a terceira quando comecei a escrever esses versos.

escrita de um poeta

sei que não tenho precisão
que escrevo coisas por acaso
que me prendo aos detalhes
– e talvez isso seja bom –

talvez seja muito sensível
talvez um pouco dramática
mas sei que me falta rigor

me falta o tal brilho
o olhar certeiro
a escrita de um poeta

talvez escreva intuitivamente
talvez seja apressada
ou até um pouco desleixada

sei que me falta repertório
me falta leitura
muita leitura

talvez me falte saber
o que é a boa poesia
encontrar a concisão

a condensação, diriam.